Do alto do Concórdia

 

        Do alto do bairro Concórdia é possível ver toda a cidade de Araçatuba. A visão começa com grandes campos verdes descampados e, conforme o olhar vai se alongando, começam a surgir as universidades, as casas antigas e os prédios. Ao final dos dias de inverno é possível ver, inclusive, uma fina neblina sobre a cidade. Já nos dias mais frios, ou quando a chuva cai torrencialmente, a cidade desaparece para quem olha lá do alto.

         Concórdia. Palavra que remete à harmonia e ao entendimento. Substantivo que se materializa todas as noites quando os amigos se juntam para conversar e ouvir música. Harmonia que se torna cristalina, quando casais enamorados sentam-se em toalhas quadriculadas e fazem seus piqueniques, observando o pôr-do-sol ou as luzes na noite. Paz que se sente, nos ensaios fotográficos, das grávidas, dos bebês e dos recém-casados.

         Quando as luzes do arrebol iluminam a cidade, do alto do Concórdia os celulares saltam dos bolsos. O espetáculo é belo demais para se deixar passar sem um registro. Pessoas param seus carros para admirar o entardecer; corredores aumentam o passo, como se o fulgor do ocaso lhes desse a energia que faltava. O brilho intenso abraça a cidade com cores vívidas.

        Quando a luz do sol finalmente se vai, basta olhar para o outro lado e apreciar o surgimento da bela da noite. No alto do Concórdia você se sente mais perto da lua. Dizem que é ilusão de ótica, mas, acredite, ali é possível sentir a força que muda marés, ajuda os cabelos a crescerem mais rápido e faz com que as crianças esforcem-se para nascer. A lua reflete a força dos nossos dias e as esperanças de nossos sonhos.

        Quando a noite se aprofunda, a harmonia se torna alegria. O som da noite é feito de conversas animadas e celulares no volume máximo. Tudo isso regado à bebida e fast-food. No alto do Concórdia tudo surge de quando menos se espera. Uma cama elástica; um carrinho de hot-dog; um grupo de corredores uniformizados ou um casal atirando discos para um cachorro em uma típica cena de parque norte-americano.

       Apesar de tudo isso, no alto do Concórdia também há aqueles que destruíram lindos bancos de madeira, que precisaram ser substituídos pelo concreto frio. E feio. Seres que deixam clara sua incapacidade de viver em sociedade, materializada no lixo espalhado e na insaciável e inexplicável vontade de causar incêndios, em vez de utilizar uma enxada para controlar o crescimento da vegetação.

 

        Coisas como esta poderiam me fazer gostar menos do alto do Concórdia. Mas se, em um dia, o vandalismo e a sujeira deixam o bairro menos belo, no outro, logo pela manhã, um sentimento de esperança ressurge. Uma mulher caminha com dois cães presos à coleira; com a mão livre, enche uma, duas, três sacolas, com o lixo deixado para trás. Seu gesto é singelo. Sua inspiração é sublime.  

 

         Dia após dia o continuo me surpreendendo. Um olhar despercebido pode não notar. Mas a beleza de tudo que ali acontece não pode ser ignorada. Todos os dias espero por um novo belo pôr-do-Sol;  por uma lua que brilha intensa; pelo amor e amizade nos pequenos gestos dos transeuntes; pela beleza das luzes da cidade.

 

         Porque do alto do Concórdia viver parece ser mais divertido. A vida parece fazer mais sentido.